Mary Oliver escreveu «A dog can never tell you what she knows from the smells off the world, but you know, watching her, that you know almost nothing» (Um cão nunca te pode contar o que sabe através dos cheiros do mundo, mas tu sabes, ao olhar para ele, que não sabes quase nada) e penso que é a melhor maneira de descrever a maneira como os cães vêem e exploram o mundo. Quantas vezes já observaste o teu cão ao sol, de olhos fechados a cheirar o vento? Ou quando voltas para casa o teu cão quer cheirar as tuas roupas e malas? Durante o passeio, parece que ele segue um rasto imaginário de cheiros? Tudo isto ocorre porque os nossos cães têm um sistema olfativo bastante complexo, que os permite explorar o mundo de uma maneira completamente diferente da nossa. Devido à nossa diferente percepção, é “fácil” desvalorizarmos a necessidade dos nossos cães para cheirar, mas tentem imaginar o que seria levar-vos a uma galeria de arte com os quadros mais bonitos do mundo mas, assim que chegávamos, tapavam-vos os olhos e puxavam-vos a correr pela galeria, sem poderem apreciar a beleza à vossa volta. Pode ser comparável à experiência dos nossos cães quando os levamos a passear e estamos constantemente a puxar a trela sem os deixar parar para cheirar. Não, eles não estão a ser chatos, teimosos, ou estão muito menos a desafiar-nos quando param para cheirar. Estão apenas a explorar o mundo de uma maneira que nós não conseguimos. Então, porque não entendermos primeiro o quão complexo é o sistema olfativo dos nossos cães para conseguirmos entender a importância do cheiro para eles?

1 – Como é que o Rufus cheira?
Agora já não é surpresa dizer que o sentido predominante nos cães é o olfato, e para tal, estão munidos de um sistema respiratório bastante mais complexo do que o nosso.

Vamos começar pelo nariz. A primeira particularidade, é que os cães conseguem cheirar separadamente através de cada narina, o que lhes permite cheirar em “stereo” e perceber de que direcção, esquerda ou direita, vem um determinado cheiro. Para além disso, se olharem para o nariz do vosso cão, vão reparar que para além das narinas, têm uma dobra de cada lado do nariz, através das quais também respiram. Estas dobras permitem que o ar circule através delas na expiração, o que cria movimentação no ar e resulta em mais ar, moléculas e concentração de odor a cada respiração. Estas duas características permitem ao cão perceber o que está á sua volta, onde e em que direcção se está a movimentar.

Quando o ar entra pelo nariz dos cães, este não vai todo para o mesmo local. Em vez disso, é dividido por um tecido para função respiratória ou para função olfativa. Nesta última, o ar entra numa região altamente especializada, com cerca de 300 milhões de receptores olfativos (por comparação, nós temos apenas cerca de 5 milhões destas células especializadas) preparados para receber todos os odores respirados pelo cão. E como é que o cão processa toda esta informação? Pois é, o bulbo olfactório no cérebro dos cães é bastante maior que o nosso, o que lhes permite processar, lembrar e distinguir uma quantidade enorme de cheiros específicos, e detectar e distinguir cheiros a concentrações até 100 milhões de vezes inferiores às que os nossos narizes conseguem detetar.

Para finalizar, no céu da boa, os nossos cães têm o órgão vomeronasal que lhes permite detetar hormonas animais, incluindo as nossas, útil para encontrarem potenciais parceiros e distinguir entre animais amigáveis ou hostis. Nos humanos este órgão é apenas vestigial, não funcionante.

2 – Porque é que o Rufus precisa de cheirar?
É agora mais fácil valorizar e perceber que os nossos cães vêem e experienciam o mundo de uma maneira completamente diferente da nossa. Através do cheiro, os nossos cães conseguem receber uma enorme quantidade de informação para além da visão, conseguindo até “viajar no tempo”. Conseguem olhar para o passado, percebendo que pessoas e outros animais passaram por ali, cheirando as “mensagens” de resíduos de cheiro que deixaram para trás, e pelo vento conseguem cheirar em que direcção é que foram e também quem se aproxima. Para eles, toda esta viagem pelo mundo de cheiros é um enorme estímulo e ao mesmo tempo descontração. Se ao fim de um dia de trabalho nos sabe bem descomprimir ao passear pelo jardim, olhar para o céu aberto, observar a natureza e a vida à nossa volta, os nossos cães têm a mesma experiência quando saem de casa e cheiram o mundo exterior. Se o passeio lhes dá alguma estimulação e cansaço físico, ao deixarmos os nossos cães cheirar, estamos a proporcionar-lhes estimulação mental, essencial para o seu bem-estar, equilíbrio e até bom comportamento. Noutro blog falaremos da importância da estimulação mental, tão essencial mas muitas vezes ignorada pelos donos.

O ato de cheirar também é importante na comunicação dos cães. Por um lado, conseguimos perceber se o nosso cão está confortável, se estiver a cheirar um local calmamente, ou desconfortável, se se movimentar erraticamente e não quiser cheirar ou interagir com o meio à sua volta. Por outro lado, é um sinal de comunicação entre cães. Na aproximação a outro cão, por exemplo, um ou ambos os cães podem cheirar calmamente o chão como uma forma educada de aproximação e também para perceberem a postura e intenções do outro cão. Noutras situações, cheirar o chão pode ser um “displacement behavior”, que são comportamentos normais feitos fora de contexto e que normalmente ocorrem quando o cão tem emoções contraditórias ou está a tentar lidar com stress, ansiedade ou frustração. Quando a interacção entre dois cães está demasiado intensa, ou quando o cão está inseguro sobre algo presente ou que se aproxima do meio envolvente, ele pode cheirar o chão como “displacement behavior”. É importante percebermos os sinais de comunicação que os cães nos dão nestas situações e deixá-los cheirar e movimentar livremente para conseguirem afastar-se de uma possível situação de stress e acalmarem.

Ao passear o seu cão, utilize uma trela longa (apropriada ao local) e solta, que permita ao cão movimentar-se, cheirar e explorar à vontade. Não desvalorize a sua necessidade de cheirar o meio à sua volta para o poder entender, comunicar, e observar o mundo de uma maneira única. Lembre-se que o passeio é dele e para ele e que o seu cão precisa desta estimulação mental para o seu bem-estar, portanto dê-lhe o seu tempo e deixe-o aproveitar! Se não tem tempo, procure a ajuda de um familiar ou Dog Walker. O Rufus agradece!

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